
A luta dos estudantes da USP contrários à presença da PM no campus foi um dos assuntos mais comentados das últimas semanas nas redes sociais, do que emergiu toda uma leva, esperada, de senso comum revestido de opiniões sólidas. Lembro, contudo, do conselho dado por Virgílio a Dante na porta do inferno: “Deixe para trás toda a esperança”.
Aqui, no campo do conhecimento, penso que quando se pretende entender o mundo, é necessário deixar para trás todos os pré-conceitos. E digo isso em sentido inverso daqueles que acreditam que livrar-se dos pré-conceitos é amalgamar e sintetizar diferentes pensamentos, mantendo-os em uma convivência harmônica. Digo no sentido de ter como critério a verdade, e afirmar isto, por si só, já é ato controverso, afinal são tempos de pluralismo de ideias.
Vale ressaltar que o conceito de pluralismo nasce como crítica ao absolutismo e à autoridade eclesial, num momento em que os ideais da burguesia nascente eram revolucionários e esta buscava pela via parlamentar o reconhecimento de uma verdade baseada na razão e não na autoridade. Nas palavras de José Chasin no texto Rota e prospectiva de um projeto marxista: “[O pluralismo], enquanto preceito do liberalismo, é um principio racional, fundado na suposta igualdade do entendimento nos indivíduos isolados; em suas origens, [constituída] base e justificativa racional-naturalista do parlamentarismo em face do absolutismo e da autoridade eclesial. Sob essa medida compreende a admissão legítima da diversidade de opiniões racionalmente constituídas e sustentadas, não tolerância indiscriminada, no mercado de ideias, para com os produtos inferiores do espírito. A fragilidade dessa concepção é a mesma de todas as configurações centradas no egoísmo racional: sua regulagem e boa destinação por meio da concorrência – no caso, a competição na feira de opiniões”.
Como pontua Chasin, o pluralismo parte da compreensão de indivíduo isolado, sem fazer a mediação necessária para explicar a origem das ideias e interesses expressos pelos indivíduos singulares enquanto parte da totalidade social.
Nos tempos de hoje, até a coerência é desprezada. O pluralismo evocado na contemporaneidade “é simples abandono à libertinagem intelectual e política, é um hino de autocomplacência, a escamoteação preventiva por tolices nem mesmo suspeitas, na certeza, no entanto, de que estão lá e que estão sendo perpetradas”.
No caso da USP e de outros movimentos que emergiram nos últimos meses, as respostas rápidas, sem qualquer reflexão, resumiram tudo a vandalismo, banditismo e rebeldia sem causa. Ora, àqueles que estão impedidos, seja por conta dos tão eficazes instrumentos de dominação de classe – como a mídia –, seja por preguiça mental, o que de certa forma é redundância, não menosprezem quem os enxerga e luta contra eles!
Restringindo a discussão ao caso da USP, que ainda continua em pauta, e em resposta aos comentários que os últimos posts tem suscitado, farei o que julgava desnecessário pelo tanto que já foi dito em outros espaços que fogem à lógica das ideias prontas.
Primeiro: não se trata de questionar quem é o sujeito, o grupo que esta à frente do protesto, mas o conteúdo das reivindicações. Vamos desvalidar uma ação porque não é levada a frente por proletários, ou porque eles têm “acesso a tudo e não tem porque nem do que reclamar”? Sim, muitos são jovens da classe média e tem tempo de protestar porque o “papai paga a conta deles”, mas isso é mais um sintoma de como a luta pela sobrevivência dificulta a enxergar as contradições e a lutar por mudanças sociais. Além do que, ter podido usufruir de uma boa formação para ingressar na USP não deve suscitar sentimentos como o de gratidão por parte dos estudantes. Pelo contrário. Quem faz tal crítica deve então lutar pela universalização dos direitos pela educação, afinal, não é por direitos salvaguardados pelo estado que tanto se luta nos tempos de hoje? Ou tais direitos só serão vistos como tal quando o estado resolver ampliá-los por força da razão?
A cegueira é tanta, a legalidade é tão defendida, que não se entende que o estado por si só não faz nada a não ser manter intocadas as contradições estruturais que o produzem. As reivindicações vêem dos indivíduos lutando na sociedade civil, e dependendo de seus conteúdos são incorporadas pelo estado. Então lutem por isso ao invés de questionar que eles têm acesso a tudo e não dão valor, ou que fazem baderna enquanto tantos outros queriam estar estudando. Esta é outra pérola, dizer que “fazem baderna às nossas custas porque é com o dinheiro dos nossos impostos que eles podem se dar ao luxo de estudar de graça”. Então questionem o porquê de todos pagarem impostos e nem todos, ou tão poucos, terem acesso a serviços públicos de qualidade. Questionem o fato de um direito ser tido como luxo!
Ainda sobre a desvalidação da causa por conta dos sujeitos que a reivindicam, vale dizer que os movimentos por moradia, que na semana passada ocuparam dez prédios vazios no centro de São Paulo, se juntaram aos estudantes na última passeata pela cidade, mostrando que a luta não se restringe a “esfera uspiana”.
Segundo: o pressuposto de que tudo gira em torno de fumar maconha confunde a causa da reivindicação com o estopim, manifesto no último dia 27, quando a PM quis prender três estudantes que portavam maconha. Para quem está de fora da luta por mudanças sociais, ou no caso da USP, pelo direito à participação no processo decisório daqueles que dela fazem parte, fica difícil entender suas reais motivações. Falar de repressão a assembleias e greves parece teoria da conspiração num estado democrático, mas mesmo que doa ter um ideal desconstruído, é o que de fato ocorre, e aqui não só na USP (http://www.omelhordosmundospossiveis.com.br/?p=558).

Como foi esclarecido por dois estudantes da ECA, Bárbara Doro Zachi e Jannerson Xavier Borges, “A reivindicação estudantil não é: PM FORA DO CAMPUS, mas antes SEGURANÇA DENTRO DO CAMPUS”. Em nota no facebook, pontuaram: “Os estudantes crêem na relação dessas reivindicações por três motivos:
A PM não é o melhor instrumento para aumentar a segurança, pois a falta de segurança da Cidade Universitária se deve, entre outros fatores, a um planejamento urbanístico antiquado, gerando grandes vazios. Iluminação apropriada, política preventiva de segurança e abertura do campus à populacão (gerando maior circulação de pessoas) seriam mais efeitas. Mas, acima de tudo…
A Guarda Universitária deve ser responsável pela segurança da universidade. Essa guarda já existe, mas está completamente sucateada. Falta contingente, treinamento, equipamento e uma legislação amparando sua atuação. Seria muito mais razoável aprimorá-la a permitir a PM no campus, principalmente porque…
A PM é instrumento de poder do Estado de São Paulo sobre a USP, que é uma autarquia e, como tal, deveria ter autonomia administrativa. O conceito de Universidade pressupõe a supremacia da ciência, sem submissão a interesses políticos e econômicos. A eleição indireta para reitor, com seleção pessoal por parte do governador do Estado, ilustra essa submissão. O atual reitor João Grandino Rodas, por exemplo, era homem forte do governo Serra antes de assumir o cargo.
POSTURA MAIS TRANSPARENTE DO REITOR RODAS / FIM DA PERSEGUIÇÃO AOS ALUNOS
Antes de tudo, independentemente de questões ideológicas, Rodas está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo por corrupção, sob acusação de envolvimento em escândalos como nomeação a cargos públicos sem concurso (inclusive do filho de Suely Vilela, reitora anterior a Rodas), criação de cargos de Pró-Reitor Adjunto sem previsão orçamentária e autorização legal, e outros.
No mais, suas decisões são contrárias à autonomia administrativa que é direito de toda universidade. Depois de declarar-se a favor da privatização da universidade pública, suspendeu salários em ocasiões de greve, anunciou a demissão em massa de 270 funcionários e, principalmente, moveu processos contra alunos e funcionários envolvidos em protestos políticos.
Rodas, em suma: foi eleito indiretamente, faz uma gestão corrupta e destrói a autonomia universitária.
Você pode estar pensando…
MAS E O ALUNO MORTO NO ESTACIONAMENTO DA FEA-USP, ENTRE OUTRAS OCORRÊNCIAS?
Sobre o caso específico, a PM fazia blitz dentro da Cidade Universitária na noite do assassinato. Ainda é bom lembrar que a presença da PM já vinha se intensificando desde sua primeira entrada na USP, em Junho/2009 (entrada permitida por Rodas, então braço-direito de Serra). Mesmo assim, ela não alterou o número de ocorrências nesse período comparado com o período anterior a 2009. Ao contrário, iniciou um policiamento ostensivo, regularmente enquadrando alunos, mesmo das unidades nas quais mais estudantes apoiam sua presença, como Poli e FEA”.